Thursday, February 07, 2008

Poema Um

Teu corpo,
nave vogando
em mares revoltos
Meu desejo emergendo dos cactos
silenciosos
na secura das tardes.

Nas tardes
diz ele, o outro
prometendo marés altas
Não. São vazas.

Wednesday, September 20, 2006

NASA/JPL/Space Science Institute O novo anel situa-se no interior dos anéis G e E
textos relacionados
Missão Cassini no site da NASA


NASA
Sonda Cassini descobre novo anel de Saturno 20.09.2006 - 20h16 PUBLICO.PT

A sonda Cassini descobriu recentemente um novo anel no planeta Saturno, informou hoje a agência espacial norte-americana (NASA).

A 17 de Setembro, as câmaras a bordo da sonda captaram imagens de partículas microscópicas que normalmente não são visíveis no conjunto dos anéis.
As imagens foram captadas durante a maior ocultação solar durante a missão de quatro anos da Cassini. Durante uma ocultação solar, o Sol passa directamente por trás de Saturno e Cassini fica na sombra do planeta, enquanto os anéis são iluminados por um brilho especial. Normalmente, uma ocultação dura apenas uma hora, mas desta vez durou doze.
O novo anel situa-se no interior dos anéis G e E (o mais exterior de Saturno) e coincide com as órbitas das luas de Saturno Janus e Epimetheus.
Cassini também captou outras imagens, nomeadamente de uns finos “dedos” de material gelado que saem da lua de Saturno, Enceladus, ao longo de centenas de quilómetros. São partículas de gelo expelidas pelos “geysers” polares da região Sul de Enceladus que entram no anel E.
“Tanto o novo anel como as inesperadas estruturas no anel E vão-nos ajudar a perceber que as luas podem tanto libertar pequenas partículas e esculpir o seu ambiente local”, explicou Matt Hedman, investigador associado na Cornell University em Ithaca, Nova Iorque.
A missão Cassini, projecto conjunto da NASA e da Agência espacial europeia (ESA), foi lançada em 1997 e passou os últimos quatro anos a estudar Saturno.
Actualmente conhecem-se, pelo menos, 47 luas de Saturno e sete anéis.

Sunday, September 17, 2006

José Afonso

A morte saiu à rua

lembrando o pintor José Dias Coelho, assassinado
pela PIDE em plena rua, em Alcântara, Lisboa.


Friday, September 15, 2006



Fortaleza de Peniche, cadeia política durante a Ditadura

A Fortaleza de Peniche foi mandada construir por D. João III, em 1557.
Sob a orientação de D. Luís de Ataíde, o Baluarte Redondo, a primeira fortificação de Peniche, começa a tomar forma para, um ano mais tarde, já no reinado de D. Sebastião, ficar pronta aquela que viria a servir como Cadeia Política da Fortaleza de Peniche.
Considerada um ponto chave na defesa do reino por mar, esta fortaleza recebeu novas fortificações, de que é exemplo a torre, construída sob orientação do Conde D. Jerónimo, durante o reinado de D. João IV.
Em 1807, durante as invasões francesas, foi tomado pelo exército napoleónico.
Em 1758, a Fortaleza de Peniche servia já como prisão política aquando da detenção do Secretário de Estado Diogo de Mendonça Corte-Real, por este discordar da actuação do Marquês de Pombal, então primeiro-ministro.
Entre 1820 e 1834, foi prisão para absolutistas e para liberais mas, entre 1934 e 1974, conheceu a mais longa e negra etapa da sua existência.
Milhares de presos da ditadura salazarista cumpriram pena nesta cadeia, sofrendo horrores no Baluarte Redondo, que funcionava como segredo. Entre greves de fome e algumas fugas durante este período, a resistência anti-fascista fica marcada pela famosa fuga de 1960.
O 25 de Abril de 1974 permite a libertação dos presos que, na altura, ali cumpriam pena, marcando o fim da Fortaleza de Peniche como Cadeia Política do Estado Novo. Actualmente, esta Fortaleza funciona como Museu onde é aflorado um pouco da história do período ditatorial português.
"Os valores do mercado - a rentabilidade, o lucro, a eficácia - dominam por todo o lado e substituem tudo o resto. Orientam as decisões dos governos, dirigem o funcionamento das famílias, impõem-se na escola, reinam nos média. Uma pessoa só será admitida para ocupar um lugar na sociedade se estiver apta a produzir e a comprar."

Subcomandante Marcos, EZLN

Sunday, September 10, 2006


Educação e especialização
Ao contrário da Economia, da Justiça ou da Saúde, em que, habitualmente, são chamados os profissionais da área respectiva a pronunciar-se, na Educação todos se sentem habilitados a emitir opinião sobre o sector e sobre as reformas que são ou não necessárias. Como todos passámos pelos bancos da escola e/ou somos mães ou pais sentimo-nos habilitados a debitar sobre Educação e a fazer os mais definitivos diagnósticos sobre o sector. Há a ideia generalizada de que esta não é uma matéria que exija especialização. Contudo, qualquer professor consciente sabe que, pelo contrário, é um sector que exige uma enorme especialização e experiência. Para se ser ministro da Educação em Portugal não é necessário nem especialização nem conhecimento do sector. Ora acresce que Maria de Lurdes Rodrigues manifesta uma notória dificuldade de comunicação, uma “qualidade” no mínimo estranha, numa pasta que envolve milhões de pessoas e em que a capacidade de comunicação deveria ser prioritária. Os portugueses têm assistido, com alguma perplexidade, às queixas da ministra da Educação sobre as taxas de insucesso e abandono escolar. Afinal, a um ministro da República não se pede que se queixe, mas que resolva os problemas. Para isso tem, primeiro, de conhecer a realidade. Contudo, os argumentos que a ministra e os seus secretários de Estado têm trazido para a comunicação social mais não revelam que um profundo desconhecimento do trabalho produzido nas escolas. Envolver os professores na solução dos problemas e não hostilizá-los seria bem mais vantajoso. Há anos que os professores deitam as mãos à cabeça com as medidas apresentadas pelos sucessivos governos, cada uma pior que a outra. Com a sua proverbial paciência, professores e conselhos executivos tentam implementar o que, muitas vezes, não tem qualquer viabilidade ou ligação à realidade.


Alberto Pimenta

Sobre os Portugueses


Os Portugueses não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros. Tomemos os exemplos mais corriqueiros. Na cidade velha, vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça. E a rua está cheia de cagadelas de cão, coisa que não se vê em mais cidade nenhuma, porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade. Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana. Começa-se sempre de cima para baixo. A Lisboa 94, com a sua falta de ideia, fez várias coisas em cima sem haver nada em baixo, confundiu arte com cultura. A cultura começa nas ruas onde se pode andar, no ambiente cuidado, nos jardins tratados, que não existem.
Há um total desprezo do próximo, uma falta de noção dos direitos e deveres urbanos civilizacionais. Soube agora de um caso que se passa num prédio normal do centro da cidade. Há alguém que guarda a moto do filho de família no patamar entre o terceiro e o quarto andares e, quando Ihe vão dizer que não o pode fazer, essa gente que é licenciada fecha a porta, dizendo: «A moto é minha, eu faço o que eu quero!» Tal e qual como o sapateiro que bate no filho e diz: «O filho é meu, eu faço o que quero!». É a sociedade do «salve-se quem puder». A maior parte das discussões que se geram em bichas, em lugares públicos onde se reclama um direito, resulta da falta de noção muito exacta que qualquer alemão, francês ou italiano tem dos seus direitos e deveres. Aqui é tudo uma «questão particular». Passa a não ser uma sociedade organizada mas um clã. É simpático, de repente, encontrarmos uma grande humanidade e intimidade onde menos esperávamos. Sabe bem mas o preço é caro, implica um dia-a-dia desgastante, onde tudo funciona improvisada e desastradamente. Nem se pode andar pelas ruas porque os carros ocupam os passeios. São insignificâncias que vão criando e alimentando quotidianamente um mal-estar, um cansaço, uma perda de energia. Quando ando pela Baixa duas ou três horas, começo a sentir um esgotamento de tipo espiritual, ao contrário do que acontece em qualquer cidade europeia em que fico mais alerta, enérgico e cheio de ideias. Aqui, começo a arrastar os pés e a andar em passo de procissão, que é como fazem os portugueses, um pouco vergados, dai a metáfora de trazer um peso nas costas. Há, de facto, um peso qualquer que está lá dentro, nas costas do espírito. Este país é como uma eterna pequena constipação.
E esta fatídica vocação para as pantufas... Conta-se que, depois do terramoto, alguns aristocratas que ficaram sem palácio instalaram-se em barracões onde é hoje o Rato, com grande promiscuidade e as couvinhas lá atrás. Quando os palácios ficaram prontos, não queriam sair, pois era ali que lhes sabia bem. Isto define a mentalidade portuguesa.
A arte em Portugal não tem a ter com a vida. O museu e o espectáculo são coisas que se passam em lugares fechados, com horário e um culto feito em grande parte de snobismo e de obrigação social. Daí o grande desconforto dos artistas em Portugal, uma espécie de marcianos, porque aquilo que fazem não tem nada a ver com os interesses da sociedade. Em Itália. o cidadão mais humilde tem uma intuição, um conhecimento e uma veneração pela arte que aqui terá talvez o equivalente na veneração pela Nossa Senhora de Fátima. Até coincide porque é a veneração por um desconhecido, pelo que está para além da razão. Se não houvesse motivos exteriores, não creio que fizesse falta a quem quer que fosse ir a exposições de pintura, ao teatro ou à ópera.
Há um egoísmo perfeitamente catastrófico que caracteriza os portugueses. No seu dia-a-dia, desde que tenha resolvido o seu problemazinho e possa comer o seu bifinho com batatas fritas ou o seu bacalhauzinho, já tira dai um prazerzinho que o deixa satisfeito. O Eça usou todos esses diminutivos com razão, porque tudo é pequeno, da dimensão ao espírito. Satisfazem-se com pouco.
Outra característica dos portugueses é ter medo do risco, podem cair no ridículo, que fica muito mal. Ora para fazer grandes coisas, é preciso arriscar cair do trapézio. Mas os portugueses preferem trabalhar com rede ou então a um metro do chão. Os Descobrimentos foram uma necessidade porque essa gente que vinha do Norte do Pais, a cair de fome e a morrer pelo caminho, não tinha outra hipótese. E não esqueçamos os mercenários. Os relatos deixam-nos imaginar o tormento daquelas viagens, com doenças e sem comida, em condições de puro desespero. Depois, lá veio a mitificação histórica. Obviamente haveria alguns, poucos, a começar pelo infante D. Henrique, que teriam o seu projecto de alargar a Terra, de chegar a qualquer lado e de tirar lucro, que é o que faz correr o homem. O Camões diz textualmente, n’Os Lusíadas, que «nunca houve nação, nem bárbara, que prezasse tão pouco as artes como a portuguesa». E o padre António Vieira dizia, naquelas etimologias divertidas, que o mundo é mundo porque, por antífrase, é imundo tal como a Lusitânia se chama assim já que não deixa luzir ninguém por causa da inveja. E podíamos continuar com o Eça, com o António Nobre, com os que reflectiram porque tiveram oportunidade de comparar... (...).
Vivi na Alemanha muitos anos e pude constatar que o mito do amor ao trabalho dos Alemães é falso. Não gostam de trabalhar, mas sabem que e preciso. Por isso, fazem-no o mais eficientemente possível. Durante o trabalho, os alemães não conversam sobre futebol nem as alemãs falam de meninos, como aqui. E fora dele é tabu falar sobre isso. Ao contrário de Portugal, onde se passa o almoço a falar do trabalho, uma paranóia perfeita.
Enquanto a Europa é urbana e civilizada há muito tempo, em Portugal o crescimento faz-se por saltos muito grandes. Temos a ideia de que o progresso é deitar fora o que há e substituir pelo novo, o que mostra que não o conseguimos integrar. Em cada época, há elementos que definem o novo-riquismo. No século XVI, o embaixador do Papa escrevia para Roma a dizer que não entendia porque é que o barbeiro, um homem muito pobre, tinha um pretinho para Ihe carregar a bacia quando ia fazer a barba a casa do cliente. Na Segunda Guerra, houve o boom dos novos-ricos do volfrâmio e dizia-se que eles comiam a sardinha assada com pão-de-ló. Hoje continua e, apesar do novo-riquismo destes anos em que já somos europeus, basta por o pé para lá da fronteira para perceber que somos cada vez menos em termos culturais. Temos o mito das melhores praias, dos melhores vinhos, mas quanto tempo vão durar? Há terrenos próximos de Lisboa, na zona do Ribatejo, que estavam classificados para agricultura exclusivamente. Há três ou quatro anos saiu um decreto que permite utilizá-los para campos de golfe desde que sejam reconvertíveis. Daqui a 15 anos, comeremos bolas de golfe em vez de couves...
Os Ingleses, mesmo lá no extremo do Sahara, continuam a manter a nacionalidade e a beber o chá das cinco porque têm uma personalidade forte. Mas um português na Alemanha, ao fim de cinco anos é alemão, e no Japão torna-se um autêntico japonês. Tem uma capacidade espantosa de adaptação, uma qualidade que lhe facilita a vida, mas que é sinal de uma personalidade fraca. O nosso racismo é económico. Tratamos com servilismo os que têm mais dinheiro que nós, embora haja quem diga que isso é a cordialidade do português a acolher os estrangeiros.
Tal como há quem diga que a língua portuguesa é o espanhol sem ossos. Compare-se o «quero-te» com o «te quiero»: enquanto num a entoação morre no fim, no outro a afirmação é evidente logo no som. É como se nem na língua tivéssemos coluna vertebral.
Portugal ficou a meio caminho entre o Norte de Africa e a Europa. E não se consegue definir. É pobre combinar as coisas sem definir uma ideia e uma identidade próprias. Não há, em Portugal, politica no sentido autêntico da palavra, uma ideia de sociedade para dar forma ao Estado. Não há partido que a tenha, excepto, talvez, o comunista, mas não é uma ideia própria. Os políticos portugueses, tal como os artistas, são preguiçosos, pouco competentes e bastante diletantes.


Diário de Notícias, 29 de Janeiro de 1995